Quando sentir vira sintoma e viver exige rótulo
Por Dra. Emanoele Freitas
neuropsicopatologista especialista em saúde mental e neurodesenvolvimento
Medicina integrativa ortomolecular.
A era dos diagnósticos velozes
Vivemos em uma era em que nunca se falou tanto em saúde mental — e nunca se diagnosticou tanto, nem tão rápido. Em plataformas como o TikTok, hashtags como #saúdemental e #autocuidado ultrapassam os 3 bilhões de visualizações. Vídeos sobre TDAH, burnout, ansiedade e depressão circulam como desabafos, tutoriais e identificações coletivas.
A dor psíquica se tornou conteúdo. E o diagnóstico, identidade.
A medicalização da sociedade não é nova, mas tomou um ritmo alarmante. Emoções naturais da existência — tristeza, frustração, luto, insegurança — passaram a ser entendidas como sintomas clínicos que precisam de nome, tratamento e, muitas vezes, medicamentos. O que antes era chamado de sofrimento humano agora é rapidamente convertido em um transtorno mental.
Quando o diagnóstico vira pertencimento
A patologização da vida cotidiana se revela sutil: começa com uma busca por respostas e termina com a sensação de que é preciso ter um rótulo para ser compreendido.
Para muitos, ser diagnosticado é encontrar sentido, pertencimento, acolhimento.
O transtorno, que antes era estigma, hoje representa alívio: finalmente existe uma explicação para a dor.
Mas há um risco. Ao transformar o diagnóstico em identidade, corremos o perigo de reduzir a complexidade humana a categorias clínicas.
A ansiedade de viver em um mundo acelerado, hiperconectado e produtivista é compreensível — mas será que toda angústia precisa de um CID?
O remédio como ferramenta de adaptação
Nunca se consumiram tantos psicofármacos.
Ansiedade, insônia, irritabilidade, desatenção — tudo tem uma pílula.
Em vez de transformar o mundo, anestesiamos o sujeito.
O remédio, que deveria ser um suporte temporário, se torna uma ferramenta de adaptação emocional à lógica do desempenho, da exaustão e da positividade tóxica.
Essa cultura da medicalização transfere o problema para o indivíduo. Se você não produz, é porque tem TDAH. Se você não suporta seu trabalho, é burnout. Se você sofre com o caos da vida moderna, é transtorno de ansiedade generalizada. E assim, patologizamos o normal — e normalizamos o adoecimento.
Diagnóstico sim, mas com responsabilidade
Não se trata de negar os transtornos mentais ou criticar o avanço do diagnóstico. Muito pelo contrário: reconhecer a dor e dar nome a ela pode salvar vidas, mas é urgente refletir sobre o quanto estamos medicalizando a existência e transformando experiências humanas legítimas em doenças.
“Temos confundido transtorno com traço de personalidade…
E, mais grave: com má educação.”
Já vivenciei muitos casos de uso indevido de termos clínicos e "pseudos" transtornos/diagnóstico (equivocado) para justificar grosserias e irresponsabilidades.
Também já ouvi muitos usando frases como “sou assim porque sou autista” — quando não há diagnóstico algum e em muitos casos diagnóstico que não passaram por nenhum critério do DSM-5 ou do CID11 e pelos protocolos e exames para confirmar, diagnóstico dado somente na queixa da pessoa com relação a sua necessidade de "entender" seu comportamento e justificar para a sociedade ou a si mesmo.
Isso desrespeita quem realmente convive com as dificuldades e limitações que muitos transtornos trazem para a vida da pessoa.
Precisamos separar o que é uma condição clínica do que é um comportamento aprendido ou uma atitude evitável.
É preciso um olhar mais cuidadoso, mais lento, mais humano.
O sofrimento psíquico nem sempre precisa de um remédio.
Às vezes, precisa de escuta. De vínculos. De pausa. De reumanizar a saúde mental.
Sentir não é patológico.
E viver não deveria exigir um laudo.
www.okemhealth.com
@draemanoelefreitas
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